sexta-feira, 14 de março de 2008

A minha morte se morreu.

Pintura - Pablo Picasso

A minha morte cometeu suicídio em plena primavera. Achou-a a mais bela das estações. Desejava partir com cheiro de vida e jasmim.
A minha morte “se morreu”.
Quando o clima estava propicio para o amor, a minha morte se matou. Quando os meus olhos pediam que viesse, ela resolveu partir. Não sei com qual roupa, não sei se a paisagem era propicia para tal encantamento. Não sei se ela me amava, se me queria perto, se meus lábios eram por ela desejados. Minha morte não deixou bilhete, testamento, nem romance escrito. A minha morte madrugou meu olhar. A minha morte não suportou o seu amor pela vida. Avistei minha morte pela primeira vez em uma mesa de bar. Ela tomava vinho tinto, tinha unhas escarlates, lábios rubros, cigarro entre os dedos e falava silente. Havia um outro copo sobre a mesa e um poema encharcado de vinho. Havia espera.
A minha morte me aguardava enquanto eu delirava para vida.
Queria saber sua idade. De quantas vidas havia provado. Por quantas vidas se apaixonou. Quantos amores a acometeram, quantos poemas lhe prestaram tributo. A minha morte me deixou um vazio absurdo. Com isso, pude compreender que ela também me era.
Ainda há companhia.
A minha morte me avizinha, mesmo, depois de ida.

7 comentários:

corossate disse...

Me ensina onde fica essa fonte. De onde vem tanta inspiração? Se eu tivesse uma morte dessa, a minha vida seria mais cuidadosa. Seria mais companheira. Beijos poeta.

Pablo Henrique disse...

Grande poeta, como faço pra comprar teus livros? Teus textos são belos com uma chuva de verão. Abraços e voltarei mais vezes.

Silvestre Gavinha disse...

Que lindo...
Esse teu namoro com a morte parece mesmo algo muito sério.
Achei lindo. Tudo o que alcanço dizer.
Marie

Ebbios disse...

A morte da morte não seria a vida?

Priscilla Silmara disse...

Engraçado, acabei de postar pro meu blog onde falava do fim da vida, daí fui ver o teu. Não postasse sábado, nem domingo, curiosamente deixaste postado desde sexta algo que suaviza meus pensamentos. Telepatia é? Quizera que ela sempre chegasse assim!

um grande abraço! alquímico é?

Felipe disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Felipe disse...

"Lipirius": Inspiração tão viva na morte, Sr. Palmeira...

É fazer dela vida, intrigante, apaixonante.

E com um cigarro.

É ama - lá, mesmo sabendo de sua inevitável vinda.