quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Da série: Todas as Cartas - Aroma de Palavras

Pintura-Jean Basquiat

Hoje o dia amanheceu com cheiro de jasmim e tristeza. Com isso, resolvi te escrever. Por saber que mesmo alegre você ainda é triste dentro, é triste fundo. Não que não seja bom ser triste, não que a tristeza não tenha sabor, mas doe demais. Eu como você sinto uma vontade de chorar sem saber bem o porquê, sem saber por que se chora assim, tão sozinho, sem se saber. Eu como você, amo a poesia da vida, mais nem mesmo ela tem me bastado.

Carrego nas mãos uma criança perdida, que chora por ter sede de Deus. Amiga, nem mesmo Deus tem me saciado. Sinto medo. O próprio amor me assusta. Diariamente vivifico minha morte, e gosto de ter tal consciência. A possibilidade de suicídio me apraz ao mesmo tempo em que nenhum suicídio me delicia. Sim, sou extremamente contraditório, mas quem não o é? Acalenta-me saber que ainda existo aromas de palavras.
Hoje o dia amanheceu com cheiro de jardim e tristeza; e eu lembrei de você.

2 comentários:

Rannimoon disse...

Nossa! Achei bem profundo, muito forte e muito intenso. Me lembra Silvia Plath. O cheiro do jasmin seria uma metáfora para o cheiro dos mortos? Pensei nisso já que é uma flor muito encontrada em cemitério, mas talvez tenha outro significado para você.

Ebbios disse...

Um poeta, ou qualquer outro homem, pode suicidar o corpo. Mas, me veio a questão: Como se pode suícidar a própria palavra? -- Não se preocupe em responder, há perguntas que já valem por si só.