domingo, 3 de fevereiro de 2008

Quando Criança

Pintura - Picasso
Quando criança dava nome a todas as estrelas que contemplava. Maria, Letícia, Eva, Joana, Eulália, Beatriz. Todas enleios meus. Eram tristes esses devaneios, estavam sempre mergulhados num sentimento de solidão debelada. Um desvario com cheiro, inocência e amplidão. Uma criança com medo, poesia e cílios castanhos. Queria provar o gosto do seio de cada uma delas, calcar cada infinito pra chegar até elas, mesmo estando com peito cansado e coração repleto de sentimentos tenros. Quando criança, porco era “apuis”, água era puá, cigarro Hollywood era Luluiud, Continental era Comental. Tinha melhor vocabulário do que hoje.
Quando criança pedia desculpas a Deus por roubar manga no colégio, por comer escondido em baixo da mesa da cozinha a margarina do café; por não saber chorar baixinho. Quando criança roubava doces para as formigas, queria vê-las com os dentes cariados. Quando criança rezava em voz alta pra chegar amplificado aos ouvidos de minha avó, e lhe ouvir dizer: “Escuta Socorro o menino rezando!” Minha mãe ria compreendendo o meu rezar. Quando criança meus fantasmas de hoje ainda molhavam as fraudas, e eu pra não ficar pra trás os acompanhava. Quando criança provei do corpo de cristo e não gostei de senti-lo nas estrelas da boca. Quando criança tinha uma tristeza me habitando o paraíso.
Quando criança alucinava baixinho qualquer vontade de voar, pra não cair do alto de minha ilusão. Namorei uma menina da escola durante três meses sem ela saber; o namoro terminou assim que ela soube. Quando criança chorava em segredo o pranto miúdo de minha avó. Pintava com meu avô suas derradeiras ilusões de político, até ele partir politicamente correto de paletó, gravata e meias furadas.
Quando criança, tive a altivez de uma noite eterna. Quando criança, minha última estrela se chamou Socorro.

2 comentários:

Clara disse...

Nunca vi nada mais terno que esse texto. Nada, nada.

DSAlves disse...
Este comentário foi removido pelo autor.